Saudade do chuveirão

27 Jul

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por Bárbara Bom Angelo

Fim de semana de frio, chuva e campeonatos intermináveis de Mario Kart. A saudade do sol não para de doer. E eis que me deparo em pleno clima polar pauistano com esse ótimo texto no blog do Antonio Prata, no qual ele conta suas peripécias por uma praia no Rio de Janeiro:

Aí, chuveirão?!

Trata-se de uma cultura realmente diferente, pensei, assim que meus amigos cariocas propuseram sair da praia, colocar camisetas entre a pele e as camadas de sal e areia que nos cobriam e ir a um restaurante. Olhei em volta, já pensando nos comentários que viriam se o paulista aqui mencionasse o desejo de passar em casa pra tomar um – que isso, mané?! – banho. Para minha sorte avistei ali perto um chuveiro, saindo do meio da praia. Seria de alguém? Haveria um “tiozinho” do chuveiro? Ou pertenceria ao hotel do outro lado da rua?

Pensei em me meter ali embaixo sem pedir permissão a ninguém, mas como dizem que em Roma devemos fazer como os romanos e não vi nenhum romano tomando banho, fiquei com medo de retaliações por parte uma possível autoridade chuveiral.

Ali perto, três cidadãos de sunga contemplavam o horizonte. Seriam os, digamos, encarregados? Cheguei perto. “Por favor” – eu disse -, “eu vi aquele chuveiro ali” – ué, os caras estão me olhando de um jeito estranho – “pensei em tomar uma ducha” – será que estou falando alguma besteira? – “vocês sabem se tem que pagar alguma coisa?”. Os três ficaram me olhando uns cinco segundos, calados, como se eu tivesse dito algo tão absurdo quanto “passa a mostarda” ou “onde pego o formulário verde?”. Transposto o vale de si-lêncio, um dos sujeitos fez um leve movimento com o queixo, apontando duas outras criaturas de sunga. Repeti, receoso, o mesmo discurso cartesiano. Novamente, espanto do outro lado da linha. Um olhou pro outro como se tivesse visto um ET. Olhou-me de cima abaixo e resolveu falar, pra delírio do comparsa, que explodiu numa gargalhada: “tu dá um sorriso e tá pago, brother”.

Me vi tão paulista naquele momento que acreditei por alguns instantes estar de terno e gravata na areia. Me senti deslocado como um Ruy Barbosa chupando picolé, um Aureliano Chaves dançando axé. Eu devia ter chegado e dito: “aí, irmão, o chuveiro?”. Ou: “ami-zade, a ducha aí, valeu?”, ou, quem sabe alinda, simplesmente “aí: chuveirão?!”.
Já no restaurante (limpo!), comecei a pensar o que seria do mundo se Descartes tivesse nascido em Madureira. Ou se Kant morasse no Canta Galo. Não fui muito longe em minhas meditações metafísicas, pois o garçom apareceu e me cortou com seu inquestionável axioma: “empada!”. Demorou!

Rio e São Paulo são, realmente, países muito diferentes.

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