Nós, paulistanos cinzentos

6 Ago
imagem: Flickr_giansanti

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por Natália Albertoni

Nós, paulistanos cinzentos, estamos tão acostumados com os atributos nada simpáticos que nos foram designados que de fato os incorporamos. Somos todos, em algum momento da semana, apressados, estressados, neuróticos sobreviventes no caos de vagalumes vermelhos estáticos num fim de tarde qualquer.

Com a mente programada para revisitar os afazeres diários, o passo acelerado de esteira ergométrica e o olhar rastreador de buracos e solas de sapato, andamos a desviar afagos, panfletos e um inocente “bom dia”.

Na semana passada, fiz uma “road trip” com três amigas pelo sul do país. Durante uma semana visitamos cidades modelos, históricas, badaladas. Em todas, nos queixamos do serviço de lanchonetes e restaurantes pelos quais passamos nos gabando de nossos atentos e ligeiros garçons.

Mas a visita à Ilha do Mel (PR), além de encher os olhos a cada pássaro que beija flores ou onda que lambe os pés, contribuiu para uma nova constatação sobre o tratamento que os paranaenses destinam aos transeuntes, nem sempre visitantes.  Eles cumprimentam todos que cruzam seu caminho, sem exceção.

É “bom dia” pra cá, “boa tarde” pra lá, um “boa noite” ao escurecer. A cada resposta eu pensava “nossa, mas que povo simpático, educado”. Só quando fui embora me dei conta de quantas vezes apertei os lábios falseando um sorriso para evitar essas palavrinhas que quase sempre terminam em papo furado.

Afinal, nós paulistanos cinzentos não temos tempo a perder. Cada conversa fiada significa 15 minutos que poderíamos ganhar no trânsito ou na fila do banco. Cada risada bem dada é o montante de segundos que nos faz perder o elevador. Cada cumprimento direcionado a desconhecidos corresponde ao tempo que deveríamos usar para preencher formulários, pedirmos a nota fiscal paulista ou comermos aquela barrinha de cereal sem graça para disfarçar o atraso, ou não existência, do almoço.

Justamente para atender as expectativas dos outros estados, somos forçosamente amargos, mau-humorados e impacientes. Por isso, da próxima vez que se deparar com uma senhora simpática do outro lado da porta giratória transparente que insiste em atrasar nossos pagamentos com seus detectores de chaves, guarda-chuvas e moedas, não se esqueça de esconder os beiços e engolir a falação. Abrace o paulistano cinzento que existe em você, mesmo que acidentalmente você ensaie uma lua crescente em seu rosto e em tom quase inaudível lhe deseje um bom dia.

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4 Respostas to “Nós, paulistanos cinzentos”

  1. Ivan Agosto, 7, 2009 às 5:52 pm #

    Oi Nati, belo texto. parabéns.

  2. Natália Albertoni Agosto, 7, 2009 às 6:10 pm #

    Valeu Ivan!
    E obrigada pela participação no blog.

  3. Mariana Setembro, 3, 2009 às 1:00 pm #

    O mau humor paulistano me fez querer sair correndo de são paulo depois de um ano morando aí. Que pessoas frias, desconfiadas, mal educadas, arrogantes. Dignas de pena pq vivem tão apressadas, que nao vivem. Pior que os paulistanos só mesmo os nordestinos que ja ocupam quase a metade da cidade. Haha Deus me livre!! Fiquei traumatizada com as pessoas. A cidade é cinza, as pessoa são cinza. Bah!Que trauma!! São Paulo nem pra passear!!
    Um abraço

    • Natália Albertoni Setembro, 8, 2009 às 2:54 pm #

      Oi Mariana, que pena que você não se adaptou. Mas se você der uma chance para essa cidade tenho certeza que pode se surpreender. Muito obrigada pela participação no blog.

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