A espera pelo fim de uma data inventada

10 Ago
imagem: Flicker_ Leo Alves Carneiro

imagem: Flicker_ Leo Alves Carneiro

por Natália Albertoni

Enquanto as tímidas lágrimas deslizavam as maçãs de seu rosto, o sol invadia o carro sem pedir licença para ofuscar a vista e o motivo de seu choro. A caminho de casa, revisitou o restaurante que acabara de deixar após o almoço, lembrou das pessoas que cumprimentou e dos sorrisos que se alargaram quando lhes desejou feliz dia dos pais.

Então lembrou que não teve a chance de estar entre os braços daquele que a ensinou a apreciar a imensidão do mar, o voo aberto da pipa, a aquarela do Toquinho e a que coloria a falta de inspiração do papel nas tardes quentes de primavera, o silêncio das estrelas, o samba de roda, a beleza da diferença, a solidariedade de quem tem nada a oferecer, os ideais do marxismo.

Não teve a oportunidade de segurar suas mãos febris, sentar-se ao seu lado para escutar alguma música que não conhece, mas pretende admirar apenas para satisfazê-lo, não escutou suas histórias maravilhosas ou suas ideias para melhorar o ensino, não conseguiu mostrar o quanto o admira e o quanto se frustra por nunca conseguir alcançar suas expectativas.

Sentiu-se só. Sentiu também raiva por nunca conseguir superar a falta que ele faz na sua vida, inveja das outras filhas que fizeram um passeio consumista com seus respectivos genitores, saudades de um tempo que podia agradá-lo pelo simples fato de rodar o vestidinho verde e rosa de Mangueira.

Lembrou dos amigos que hoje não podem abraçar seus pais por motivos extraterrenos e tentou recordar porque há tanto tempo não conseguia abraçar o seu. Entre soluços contidos desejou que ele não tivesse criado uma barreira entre os dois, no lugar de abrir espaço para se conhecerem melhor.

Cobiçou o fim do dia, de todas as esperas ao longo dos anos, do orgulho egoísta que insiste em separá-los. O percurso do seu lamento secou e seus olhos se apagaram por uns instantes. Com a chave nas mãos, pensou que a programação poderia ter sido diferente e por um momento considerou a possibilidade de esquecer as desavenças ao mesmo tempo que superava os lances de escada.

(…)

Mas adentrou o vazio de sua casa e lá permaneceu calada até a escuridão invadir a sala e encerrar mais uma data inventada.

2 Respostas to “A espera pelo fim de uma data inventada”

  1. Elisa Ayoub Agosto, 10, 2009 às 1:40 am #

    ah! que lindo.
    ninguém no mundo faria melhor.

    • Natália Albertoni Agosto, 10, 2009 às 5:53 pm #

      Obrigada querida! E valeu pela participação no blog.

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