Cinzas e flores

18 Nov

(imagem: Flickr)

por Natália Albertoni

“É estranho. Os bons morrem jovens. Assim parece ser quando
me lembro de você que acabou indo embora cedo demais.” (Renato Russo)

Seu último cigarro foi aceso em uma sexta-feira 13 em que os raios de sol aqueciam até a mais escura sombra. Enquanto o farelo cinzento fazia a curva natural a caminho de esgotar a pequena brasa, as pessoas se amontoavam a sua volta, o espiavam com o auxílio da ponta dos pés e enchiam os olhos d’água em busca de um pouquinho de presença.

(…)

Vagaroso, arrastava as sandálias de couro pelos corredores com a mesma tranqüilidade de uma canção saudosa. Balançava a cabeça meio sem jeito, meio com charme, para ajeitar os finos e compridos fios de cabelo que insistiam em perder cor.

Sempre de calça jeans, disfarçava a regata neutra com uma camisa colorida, normalmente xadrez. Os colares envolvidos em seu pescoço e o pêndulo de pena suspenso por uma de suas orelhas reforçavam um estilo hippie, tanto ultrapassado quanto encantador.

Recostado na porta, aguardava o atraso por alguns instantes. Ainda baforando o hálito seco e amargo consequente do último trago de tabaco, beijava carinhosamente a testa de alguns que pouco a pouco adentravam a sala e seu mundo para lá viajarem durante cerca de 45 minutos.

Na companhia de palavras e expressões curiosas, transmitia um medo bom. Um temor instigante, intencional, com propósito. Só agora faz tanto sentido. Cauteloso, observava os questionamentos sem interferir nas conclusões subjetivas.  E segurando o queixo com a ponta dos dedos, analisava todos com um sorriso leve, enigmático, às vezes irônico.

Deve estar a fazer isso agora, tranqüilo, com os óculos em repouso no topo da sua cabeça como uma tiara. Ainda misterioso, deixa inquietação e medo no ar para sugerir alguma reflexão aos que tiveram a sorte de conhecê-lo.

O cigarro enfim apagou-se. Sobraram as cinzas, as flores e a saudade.

***

Desde cedo aprendemos que a nossa única certeza na vida, é a morte. Mas não aprendemos a continuar depois dela. Desejo força aos que ficaram, para que possam seguir em frente. Equilíbrio aos que perderam o chão. Pêsames apenas aos que nunca terão chance de passar sequer alguns minutos ao seu lado.

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