Acho que não gosto de 3D. Sou louca?

4 Maio

imagem: stanleymcf on Xanga

por Bárbara Bom Angelo

Ainda não vi nenhum filme em 3D e não sei se vou. Tenho a impressão que vai me tirar a atenção do filme, que vou ficar enjoada, que vou ter flashbacks do Parque da Mônica. Alice, que é uma das minhas histórias favoritas em todo o mundo, está aí com toda essa tecnologia e eu não me empolguei. Faço o quê? A opção que está caindo nos meus amores é ver a produção primeiro “pura” e depois partir para a experimentação.

E para quem respondeu SIM para a pergunta do título, saibam que não sou a única. O texto abaixo da Adriana Salles Gomes, para o Update or Die, me fez sentir um pouco menos um ET.

***
Dez razões para você não gostar do 3-D
por Adriana Salles Gomes

Faz algum tempo que venho implicando com o cinema 3-D. Desde o Hopi Hari, talvez (risos), ou até antes. Aqueles cinemas 360 graus do parquinho de diversões de Ubatuba contam? Parece que tenta negar o cinema em si (que tem a ver com ilusão sutil, insinuada), incomoda-me a vista, não consigo aproveitar. Fui com meu filho de 6 anos a um filme 3-D e ele também achou desconfortável, desconfio que ficou enjoado. Mas todo mundo anda apaixonado pelo 3-D, e pelo dinheiro que vem gerando a Hollywood e toda a indústria. Tanto que eu já tinha me conformado em apenas torcer para nem todas as salas de cinema (e nem todos os aparelhos de TV) sucumbirem a essa tecnologia.

Aí vem um autodenominado herege na revista Newsweek e resolve dizer que –e por quê– ele também não curte o dito cujo. Foi a glória. Resumo abaixo os nove pontos do contra do Roger Ebert da Newsweek e acrescento um décimo de lavra própria.

  1. O 3-D é desperdício de uma dimensão. Quando você assiste a um filme 2-D, sua cabeça já o está enxergando como se fosse 3-D. Ou será que, quando viu o Lawrence da Arábia  vindo lá de longe do deserto, alguém ficou imaginando “nossa, como esse cara vai crescendo devagar na tela, eu queria que fosse em 3-D!” Nossas mentes já providenciam a ilusão do 3-D utilizando o princípio da perspectiva. Se você adiciona artificialmente a terceira dimensão, a ilusão fica menos convincente.
  2. O 3-D não acrescenta nada à experiência do espectador. Pense nos melhores filmes que viu na vida. Eles não conseguiram envolver sua imaginação em 2-D mesmo? (Ebert menciona “Fargo” e “Casablanca”; eu citaria “Apocalypse Now” e “Star Wars”.)
  3. O 3-D pode distrair você em uma cena. Na tecnologia 2-D, os diretores usam a diferença de foco para chamar a atenção do espectador ora para o primeiro plano, ora para o background. No 3-D, a tecnologia já dá a profundidade de campo, o que, além de ser desnecessário, tira um recurso para focar nossa atenção das mãos do diretor.
  4. O 3-D pode causar náusea e dor de cabeça. A agência Reuters foi ouvir oftalmologistas quando lançaram aparelhos de TV 3-D no Consumer Electronics Show de Las Vegas, em janeiro último. E os médicos disseram duas coisas: primeiro, quem tem problemas pequenos de visão (como desequilíbrio muscular) precisa fazer um grande esforço ao ver o 3-D, o que é um pulo para a dor de cabeça; segundo, cada olho vê as coisas de um ângulo levemente distinto, o que “calibra” seus olhos e seu cérebro de determinado modo. Aí vem o filme 3-D com outra calibragem e isso pode causar enjoo. Já há pesquisa dizendo que 15% da plateia sente náusea e dor de cabeça.
  5. O 3-D é um pouco mais escuro que o filme 2-D. Parece que o projetores digitais atuais são ineficientes para o 3-D, e a luz acaba indo metade para um olho, metade para o outro, o que na prática provoca uma redução de 50% na iluminação. Além disso, os próprios óculos absorvem um tanto de luz. E sem desculpas: isso acontece tanto nas telas IMAX oficiais como nas “fake IMAX”.
  6. Parte da febre do 3-D tem a ver com a pressão da indústria para vender os novos projetores digitais, e não com a qualidade da experiência cinematográfica de ninguém. Só para seu conhecimento.
  7. Os ingressos de cinema, já nada baratos, ficam mais caros para filmes 3-D. Constitui, na prática, uma extorsão, já que o mesmo projetor do filme 3-D vem exibindo filmes 2-D sem que o cinema cobre mais por estes. Será que os ingressos baratearão depois que os equipamentos forem pagos? E isso tem feito, inclusive, com que filmes não filmados originalmente para 3-D sejam exibidos em salas 3-D apenas para que se cobre mais caro.
  8. Não dá para imaginar um filme sério, como um drama, em 3-D. Vale a pena para animações ou fantasias como Avatar, com o gênio tecnológico de James Cameron por trás (é Cameron na foto do post). Note que, mesmo em Alice, em que Tim Burton foi obrigado pelos executivos de marketing a criar uma “versão 3-D”, os efeitos são poucos e desnecessários.
  9. Hollywood sempre recorre à tecnologia quando se sente ameaçada pelo cinema em casa, e é por isso que está se agarrando tanto ao 3-D como se fosse tábua de salvação. Só para seu conhecimento 2. (Com o agravante de que, com a TV em 3-D, o gap pode diminuir novamente e vão precisar inventar mais alguma coisa.)
  10. Esse motivo é meu (da Adriana). A lógica do 3-D é enganar muito o cérebro. Lendo um pouco sobre neurociência, tenho a intuição de que não é uma boa ideia ficar enganando o próprio cérebro assim à toa, por nada. Trata-se de puro palpite, sem nenhuma base científica, mas resolvi registrar.

Ebert diz que não é contra o 3-D como uma das opções, também eu não sou. Só não pode virar algo obrigatório, do tipo “a única opção disponível”.

O artigo da Newsweek foi dica do Ricardo Cavallini (que também não gosta de 3-D, já somos quatro contando meu filho! E viva nós porque, como diria Nelson, toda unanimidade é burra!)

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