A saudade leva o vulto teu

3 Jun

por Natália Albertoni

Eu mal a conhecia, mas quando ouço passos fortes a caminhar em direção ao depósito localizado no final do corredor que deságua a cerca de um metro da minha mesa de trabalho, sempre olho para trás. Às vezes só enxergo a sombra que adentra a sala fina e comprida repleta de calçados coloridos, sacolas de papel, e entulhos mil. A luz fraca e amarela reforça o vulto em movimento e, não sei por que, teimo em esperar pela pessoa que sairá de lá de dentro para fechar a porta mais uma vez.

Não é você.

Você mal me conhecia, mas toda vez que saia daquela porta, abria um sorriso discreto. Eu sorria de volta. Mas nunca fui até lá para checar se precisava de ajuda. Será que precisava?

Uma vez conversamos no almoço. Lembro de você vestir uma camiseta com cor de melancia, uma calça jeans, um tênis cinza e um sorriso. Se não nos lábios, nos olhos. Esta é a imagem que me vem à imaginação quando cerro os meus. Você tem ocupado meus pensamentos. No momento que entro no carro e coloco o cinto de segurança, olho para a porta do depósito, ou vejo alguma tatuagem inusitada como a que você mostrou um dia, a que guardava escondida dentro da boca.

Hoje, ao folhear um livro de fotografia com imagens antigas, pensei no quanto de cemitério reside em uma fotografia. Assim como as ruas e fachadas se transformam, crianças de laçarote sob os cabelos agora devem ser velhos, já os velhos certamente não estão mais entre nós.  Não queria ter pensado nisso.

Lembrei que há poucos dias rolou um evento aqui no nosso trabalho e perto daquele mesmo corredor, celebramos nossos futuros ideais. Na ocasião, trouxe uma câmera fotográfica. Você gostou do aparelhinho, quis segurar nas mãos, disse que parecia de brinquedo. Acho que consigo ouvir sua voz.

Ficamos, então, posicionadas ao lado de mais algumas pessoas, apertei o botão e usei a gelatina azul no flash. A câmera era analógica e, agora, fico pensando se esta foto vai sair vingar na próxima revelação.

Da última vez que conversamos, falamos sobre um projeto que talvez nos aproximasse. Mas o tempo não me deu essa chance. Você pediu meu telefone e, curiosamente, disse que queria encaminhar uma foto tirada naquele mesmo dia. Penso agora que nunca mais vou recebê-la. Parece mesquinho pensar em algo desse tipo num momento como esse. Mas em tempos cinzentos como este, sentimos demais a falta de presença.

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