#12 Moleskines dos outros

1 Set

por Natália Albertoni

Quando pequeno Paulo Leierer sonhava em ser presidente do Brasil. A vida tomou rumo diferente e, ao invés de um país, ele agora comanda câmeras e seu pequeno negócio. Ao lado de quatro amigos criou a produtora Toca dos Filmes, uma ficada de carnaval que terminou em namoro, na sua própria definição.

Se precisasse sintetizar em uma palavra o que significa fazer cinema por aqui, escolheria “frustrante”. Apesar do pessimismo em torno das políticas cinematográficas e das dificuldades herdadas da profissão, vai muito bem, obrigada. Dirigiu filmes de campanhas publicitárias como a do patrocínio da Topper para o Rugby, videoclipes, pilotos para TV, além de dois curtas, sendo que um deles, O Dia M, foi premiado no Hollywood Brazilan Film Festival.

No seu Moleskine, esconde apenas textos, ideias de roteiros, cenas ou diálogos. Não mostraria suas palavras soltas para qualquer um. Mas com muito bom humor, ele topou abrir uma exceção, suas páginas, a cabeça. Dá uma olhada.

Como explicaria o seu trabalho para sua mãe? Putz, já tentei várias vezes. Dirigir um filme é semelhante a ser um técnico de futebol. Você escala o time (forma a equipe), analisa o jogo (o roteiro), monta uma tática (pensa na direção da câmera e dos atores), administra pessoas (egos) e negocia com o cartola (o produtor). Você não entra em campo, mas explica como e porque o time tem que jogar daquela maneira e o filme ser rodado daquele jeito. Precisa ter tudo sob controle e, ao mesmo tempo prever o imprevisto, estar aberto para ele. No final, se o resultado for positivo, o time jogou bem. Se for negativo, o técnico vai pro olho da rua. Acho que essa explicação não daria tão certo porque minha mãe nada entende de futebol, mas o espírito é esse.

Qual é o seu lugar preferido no mundo que você conhece? São dois. O meu quarto é o segundo lugar onde me sinto melhor, perdendo apenas para o set de filmagem.

Que história é essa de cover do Tim Maia? Você tem uma banda? Não! Isso é apenas uma piada porque sou o anti-Tim Maia. Magro, branquelo, desafinado e com o gingado do Clint Eastwood.

Quando você comprou seu primeiro Moleskine? Ganhei de aniversário. Nunca comprei porque achava muito caro prum “caderninho da moda”. Mas hoje em dia eles se tornaram necessários.

O que tem nos seus caderninhos? Ideias de roteiros, cenas ou diálogos. Só textos. Na maioria das vezes tento escrever uma ordem de cenas. Uma ideia surge de forma muito caótica e eu uso o Moleskine para tentar esquematizar, desmembrar e questioná-la.

Você é sócio de uma produtora de filmes. Como isso aconteceu? Foi meio por acidente. A gente abriu a produtora basicamente para emitir as notas fiscais dos freelas que estávamos fazendo. A coisa foi crescendo, fomos fazendo alguns trabalhos para alguns clientes, até oficializarmos. Foi uma ficada acidental e despretensiosa de carnaval que terminou em namoro.

Como é trabalhar com cinema no Brasil? Em uma palavra: frustrante. A política vence as ideias e, para quem quer trabalhar com a segunda, é um golpe duro. Por isso que tenho tentado abrir o leque um pouco mais, e trabalhar também com séries de TV e filmes publicitários.

Qual é o seu filme preferido? Paris, Texas [Wim Wenders].

Qual diretor o inspira? O meu negócio hoje é o humor. Gosto muito de como o Judd Apatow  traz assuntos relevantes e universais de forma engraçada, do cinismo dos Irmãos Coen, do nonsense do Monty Python, da neurose do Woody Allen, da mesquinhez do Larry David e do desconforto do Ricky Gervais. Tenho achado os filmes muito bunda mole. Hoje tenho muito mais tesão em séries do que em filmes.Tenho gostado muito de Seinfeld, The Office, The West Wing, Californication, Breaking Bad, House, Mad Men e Studio 60.

Qual é a trilha sonora da sua vida? Ultimamente tenho ouvido Bon Iver, Neil Young, Bob Dylan, Dinosaur Jr., Thurston Moore, Bill Callahan e Wilco, além dos clássicos Beatles, Stones, Velvet Underground, Janis Joplin. Vario, mas não sou eclético.

Qual é o projeto mais ambicioso impresso no seu moleskine? Já saiu do papel? Já sim. Rodamos três pilotos de série de TV que saíram dele! Um deu em nada, outro foi negociado e um está em finalização.

Você já fez dois curtas, entre eles O Dia M, que foi exibido em festivais internacionais, incluindo o Hollywood Brazilian Film Festival. Imaginava isso acontecendo na sua vida? A resposta é bem pretensiosa, mas sim. Quando você está fazendo um filme, quer que ele seja exibido no maior número de lugares possíveis. Evidente que a cada festival que o filme entrava era uma surpresa mais do que bem-vinda, mas gostaria que tivesse entrado em mais festivais ainda. Agora, se você me pergunta se eu imaginava isso quando era criança, eu não imaginava. Eu queria é ser presidente do Brasil.

Pretende fazer um longa? Sim, mas não agora. Agora eu não tenho dinheiro, contatos, nome, tempo e talento. Terei que esperar mais uma ou duas copas do mundo.

Se sua vida fosse um filme como seria a primeira cena? Se eu tivesse me tornado realmente presidente, poderia ser uma plano-sequência rebuscado, como no começo de O Jogador [Robert Altman], A Marca da Maldade [Orson Welles], Boogie Nights [Paul Anderson] mas como minha vida é ordinária demais pra isso, pode ser um começo de filme tipo o Anniel Hall [Woody Allen], que resume nossa existência em duas piadas.

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