#13 Moleskine dos outros

13 Out

por Bárbara Bom Angelo

Ela pegou a coragem, colocou na bolsa e se mandou pra Nova York. De lá, quer tirar tudo o que for possível, mas no momento se concentra em um curso de cinema que me deixa morrendo de inveja. Eu só a encontrei para valer, cara a cara/olho no olho, uma vez. Mas foi suficiente. Encontrei nos seus olhos gigantes uma comparsa de gosto, seja por música, livros, tatuagens…

E os moleskines da Martina Sonksen talvez sejam os mais sortudos desta seção até agora. Vida boa de um caderno que recebe todos os dias impressões de uma cidade como NY, resenhas de shows fantásticos que acontecem a qualquer momento, exposições que nem vamos sonhar em ver etc etc etc. Enfim, leia a conversa abaixo e abrace sua dor de cotovelo.

Onde mora o corpo?
O corpo mora atualmente em Nova York. Onde ele anda mais feliz, leve e com algumas dores na costas, já que aqui ele carrega todas as sacolas e bolsas pesadas pra todo canto. Às vezes também carrega colchão, mala, mesa, cadeira e mais móveis durante as várias mudanças de apartamento que já rolaram.

Onde mora o coração?
O coração mora divido. Mora metade em São Paulo, com minha família, amigos e meu cachorro (que eu morro de saudade) e a outra metade mora aqui em NY. Desde que cheguei pra morar aqui no primeiro dia, eu já sabia que meu coração jamais iria ser de uma cidade só.

O que tem nos seus moleskines?
Meus molekines são divididos por assuntos, mas não sou tão organizada quanto possa parecer. Além de sentir que penso melhor ao escrever e a minha memória é muito ruim, eu anoto tudo o que vejo, descubro e fico sabendo.

Tenho moleskines de estudos, aulas e cursos. Tenho outro menorzinho que fica na bolsa sempre, que é pra anotar coisas que vejo em exposições aqui em NY, coisas que vejo na cidade, pensamentos momentâneos, músicas e bandas que eu descubro o nome, ou seja, tudo aquilo que acontece enquanto eu tô na rua. Tenho outro só dedicado aos meus sentimentos e desabafos, tipo um diário mesmo. E um outro essencial com tudo o que preciso fazer, contas pra pagar etc.

Da onde veio o nome Martina?
Putz, minha família é uma bagunça. É alemão com holandês com italiano. Meu nome com certeza tem alguma origem gringa, que eu deveria saber qual é, mas não sei. Meus pais escolheram porque achavam um nome forte.

Que história foi essa de largar as coisas no Brasil e se mudar para Nova York?
Pois é… NY foi uma cidade que eu sempre quis morar. E eu tava louca pra estudar cinema/documentário. Mas tudo aconteceu do jeito certo. No tempo que tinha que acontecer. Eu juntei dinheiro, pesquisei escolas e fiz processos de bolsas que me interessavam e quando tudo parecia possível, resolvi fazer as malas e vir.

É tudo o que você esperava?
Já que só tinha vindo pra NY antes como turista, eu não achava que a cidade era tão dura assim. NY é uma cidade intensa. É um cidade que você sente todos os sentimentos possíveis ao mesmo tempo. É uma cidade que endurece as pessoas. E ao mesmo tempo ela está me ensinando o que é necessário ser valorizado na vida, ela tem me mostrado as coisas que eu não tolero.

NY é uma cidade onde você conhece muita gente que tá na mesma situação que você. É uma cidade jovem, é uma cidade para as pessoas trocarem ideias, pensamentos, projetos e produzirem. Afinal a cidade é tão cheia de estímulos e de acontecimentos inspiradores que acaba por desafiar as pessoas a entender a vida de uma perspectiva diferente. É como uma amiga minha diz: “parece que Nova York exige que a gente seja para ela o que nunca fomos para nenhuma outra cidade.”

Adoro ver suas fotos no Instagr.am. Dá uma inveja branca de ver os shows e exposições que você tem ido. Quais foram os melhores programas até agora?
Vivenciei algumas programas incríveis em NYC, como: The Strokes no Madison Square Garden, Paul [McCartney] no Yankees Stadium, exposição do Alexander McQueen no MET, ver a Cherry Blossom Season no Brooklyn Botanic Garden, show no Central Park de graça, a peça Sleep No More no Chelsea, conseguir ingresso pra assistir Shakespeare in the Park no Central Park, Central Park no verão etc. Mas mesmo assim eu ainda acho que o melhor programa em NY é viver a cidade, andar na rua, prestar atenção nas pessoas no metrô, curtir os museus e as exposições, todas as produções artísticas e os shows. A cada esquina existe um lojinha interessante, um restaurante pequeno, uma nova galeria de arte, uma nova exposição, um novo show e por aí vai. Dá até uma sensação de que você tá perdendo algo incrível que tá rolando a cada segundo.

Sei que você está trabalhando em um projeto. Dá para contar o que é?
Como uma boa geminiana, eu tô trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo. Fiz várias coisas bacanas durante esse ano, como direção de arte pra alguns curtas, filmei com a galera em lugares que eu jamais achei que iria e conheci muita gente interessante. E agora tô trabalhando na minha tese da escola, um curta sobre uma bailarina brasileira que mora aqui em NYC. E também produzi um curta sobre caras que cuidam de pombas em Bushwick, no Brooklyn. O trailer pode ser visto aqui.

Onde foi parar a pessoa que você queria ser?
O que eu quero ser está sempre em movimento, mudando. Acho os desafios na vida vão fazendo a gente se mexer, sair do lugar comum, tomar decisões inesperadas. Não tenho medo de mudanças, tenho medo de ficar empacada, fazendo a mesma coisa todos os dias da minha vida. Óbvio que eu procuro estabilidade, mas acho que é sempre mais válido tentar e descobrir um novo caminho ao invés de ver a vida passar e não desafiá-la.

Qual o melhor gosto da infância?
Não sei se a gente romantiza muito a infância, mas eu acho que é mesmo a melhor fase da vida. E temos que fazer um esforço para manter um pouco de infância para sempre dentro da gente, se não a gente para de ver beleza nas coisas da vida.

O melhor gosto da infância é, literalmente, de areia. Lembro ficar horas no mar até tomar altos caldos e comer muita areia.

A pergunta que não quer calar, você volta?
Ai, ai. Eu não quero voltar não. Mas eu também não sei o que vai acontecer nos próximos meses.

3 Respostas to “#13 Moleskine dos outros”

  1. Martina Sönksen de Siqueira Outubro, 18, 2011 às 7:10 pm #

    🙂

  2. Maddie Fevereiro, 22, 2016 às 4:35 pm #

    Nossa! que tudo o moleskine dessa menina… até eu fiquei com uma invejinha…
    Tenho dois moleskines até o momento, um eu fiz e guardei coisas importantes que aprendi na minha pós graduação, escrevi o que achei interessante, guardei também alguns exercícios de desenvolvimento pessoal nele, é o moleskine mais importante. Aprendi a prática do moleskine a pouco tempo…
    O moleskine que tenho rabiscado ultimamente, venho traçando metas e descrevendo possíveis planos para alcançar essas metas, ao mesmo tempo eu venho escrevendo como tem sido lutar por essas metas.
    Tenho um diário online que é como se fosse um moleskine online, ao qual escrevo acontecimentos da minha vida, principalmente sobre meu relacionamento amoroso.

    Estou amando o seu blog😀
    http://maddiemallows.blogspot.com/

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  1. Dias de sol, estamos esperando por vocês « Verdades particulares de um caderno sem linhas - Janeiro, 25, 2012

    […] cinza já estão deixando a felicidade cansada. O lindo vídeo acima, feito por Martina Sönksen (lembram dela?) e por Ariela Dorf,  é uma tentativa de espantar essa água toda para lá. Espalhe:Share on […]

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