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Entrevista do Verdades | Marcelo Costa, do Scream & Yell

2 Set

por Bárbara Bom Angelo

Texto curto, rápido e direto. De preferência com fotos mil. Esse é o padrão em que querem, há tempos, amarrar a internet. Só que tem vezes que você quer algo com mais sustância, sabe? Tipo comida de mãe? Você quer ler impressões mais profundas de um disco, um show, um filme ou um livro e para isso não ter que correr para um jornal ou revista. Afinal, você quer agora – é o mal dessa nossa geração instantânea.

Quando essa vontade bate, o lugar para onde vou de olhos fechados é o Scream & Yell, site de cultura pop que já está em seu décimo primeiro ano de vida. Antes de estabelecer casa no mundo digital, o S&Y era um fanzine de papel e tinta que rodava feliz pelas ruas de Taubaté, interior de São Paulo. Ele vinha cheio de textos sobre música, filmes e comportamento e se manteve assim até mesmo quando mudou de mídia definitivamente em 2000. O editor Marcelo Costa resolveu vir para a capital paulista de vez e não mais restringir todo aquele conteúdo bacana a uma só cidade.

Gosto de imaginar o Marcelo como um Rob Gordon tupiniquim. Rob, para quem não lembra, é o personagem principal de Alta Fidelidade, do Nick Hornby, que é viciado em música e em fazer listas de tudo o que for possível. Quem frequenta o blog pessoal do Marcelo sabe bem do apreço que ele tem pelo escritor britânico e também em bolar os seus próprios Top 5, que ficam sempre em destaque e acabam servindo para mim como uma espécie de guia. Mas atenção, ele garante ser bem mais confiante que Rob e outros tipos de Hornby.

Eu tendo a concordar com ele, ainda mais depois de gentilmente aceitar dar a entrevista que você confere abaixo ao Verdades para contar um pouco mais do S&Y e de si mesmo.

A edição preto e branco do número 3 do fanzine Scream & Yell ao lado da sua versão digital atual

Essa é a vida que você sempre quis? Escrever sobre o que gosta, viajar bastante, ir a vários shows… Está faltando algo?
Eu tive um pouquinho de sorte no trajeto até agora (e vou precisar de mais um tantinho para prosseguir), mas quando olho para trás fico muito feliz com tudo o que aconteceu. Ainda assim tento não pensar tanto no que aconteceu e sim no que vai acontecer. É uma metáfora interessante: quando observo o tanto que caminhei, me sinto feliz e realizado; quando penso no tanto que ainda falta para caminhar, parece que não sai do lugar. A vida segue…


Como fazer para não perder o tesão editando há 11 anos o mesmo site?
E quem disse que eu não perco? 🙂 Existem dias ruins, em que a vontade de abandonar tudo é enorme. Deletar e-mail, Facebook, Twitter, largar o site e… sair por aí sem rumo, lenço e documento. Felizmente existem dias bons, em que um bom texto me faz sentir que, sim, vale a pena continuar fazendo o que eu faço. Sigo balançando entre os dois extremos e… risos… parece outra metáfora da minha vida.


O Scream & Yell vai na contramão do que muitos acreditam ser o que funciona na internet: textos curtos. Por lá, a gente encontra entrevistas, críticas e reportagens bem longas. E dá mais do que certo. Por quê?
Eu não tenho a resposta, mas acredito que existem pessoas interessadas em conteúdo, em algo mais elaborado, profundo, irônico. Quando começamos só queríamos provocar, sabe. Fugir do lugar comum. Fazer algo que a gente gostasse realmente sem precisar seguir algum hype. E conseguimos um espaço de que me orgulho. No entanto, um tempo depois apareceu gente escrevendo textos longos, então inverti a provocação tentando resenhar discos em 500 e 1000 toques. Provocar é essencial. Tirar o leitor (e você mesmo) da zona de conforto. Isso me interessa.


Como dar conta de tudo o que você precisa ouvir, ler e assistir? Como não deixar as coisas que você mais gosta virarem obrigação?
Algumas coisas acabam virando, inevitavelmente, mas o que me salva ainda é um bom disco, um bom filme, um bom livro, uma boa foto. Quando algo bom toma a alma da gente, a obrigação passa a ser falar disso, estender o entendimento, contaminar outras pessoas. Não é uma obrigação – no sentido negativo do termo – escrever 11 mil toques sobre o disco do Decemberists. Eu preciso escrever do disco porque quero que pessoas que não o conhecem, o descubram. Se vou dormir às 5 da manhã em uma viagem porque eu queria escrever sobre o que aconteceu naquele dia é porque quero que essa pessoa que lê participe da minha experiência e tenha, assim, vontade de ter a dela.

Qual banda anda consumindo seus ouvidos ultimamente? Está ansioso por algum show que vai rolar em breve?
Tenho tentado não ouvir Decemberists (risos), mas é tão difícil. Sobre shows, tenho pensado bastante no Pearl Jam. Acho que será especial. Mas se tivesse que escolher um seria o show gratuito que o Arcade Fire fará em Montreal, 22 de setembro, encerrando a turnê “The Suburbs” em casa. Tem tudo para ser histórico.


O que você faz só para você?
Vejo filmes (muitos), ouço discos (muitos também), leio livros (poucos) e bebo cervejas (não muitas… risos). De vez em quando cozinho… bem de vez em quando.


Acompanho muito o desenvolvimento dos seus roteiros de viagem, especialmente porque eu adoro fazer o mesmo. Qual a próxima?
Não há nenhuma desenhada neste momento, mas pequenos prováveis roteiros. Por exemplo: estou pensando em ir ao cruzeiro do Weezer, em janeiro, e descer de lá para a casa de um amigo na República Dominicana passando pelo Haiti e por Cuba. Não deve acontecer, mas é uma ideia. Outra envolve a Escandinávia (incluindo San Petersburgo). Há ainda uma viagem de carro pela Itália, a necessidade de conhecer Portugal e a vontade de ir ao Fuji Rock Festival, no Japão. Ou seja: são vários roteiros que se adaptam a oportunidade do momento.

Marcelo Costa em Veneza


Quais são os lugares que você visitou que roubaram seu coração?
Veneza é a número 1, e acredito que o texto sobre a cidade assinado pela Cathy Newman, editora especial da National Geographic, pesa no olhar poético que tenho sobre a cidade. Mas só um pouco: bastou olhar as casinhas empilhadas sobre o mar da janela do avião para o coração derreter. Santorini também é algo inacreditável. Praga, Paris e Amsterdã são mais táteis, mas não menos apaixonantes. Por fim, Cork – pelo folk irlandês.


Em que lugar de São Paulo você encontra um pouco de Taubaté, a cidade onde cresceu?
Eu nasci em uma maternidade no Belenzinho, pois, segundo minha mãe, não havia nenhuma na Mooca, onde morávamos na época. Fui para Taubaté com cinco anos e cresci olhando a vida com olhar de interior. Mas meu coração sempre bateu por São Paulo. Então, hoje em dia, só encontro Taubaté quando pego no telefone para falar com a minha mãe, a minha irmã e a minha sobrinha. Sempre fui São Paulo, mesmo quando não estava aqui.


O que tem de paulistano em você?
O jeito meio workaholic de ser, talvez. Sinceramente, não sei. Paulistano é meio blasé porque se acostumou a ter acesso a tudo (e isso é um grande defeito), então não se importa em perder um show ou um filme hoje, “porque semana que vem tem outros shows e filmes”. O bom de viver em uma cidade de interior é aprender a valorizar a necessidade. Ir ao cinema e não ter filme nenhum para ver (mas não perder de maneira alguma quando aparecer algo interessante). Será que sou paulistano mesmo? Certa vez, em uma troca de cartas com uma amiga carioca, escrevi:

>De resto, tudo bem. É impressionante como essa poluição toda me faz bem para alma.
E ela: Meu Deus, os paulistas realmente não são deste planeta. Isso é porque você não mora no Rio: eu vejo o mar e o sol e a lagoa e a montanha todos os dias… todos os dias Deus me lembra que estou viva.

Não sei se tenho algo de paulistano realmente, mas me emociono todas as vezes que o piloto do avião diz que o pouso na cidade está autorizado e as casas e prédios começam a crescer e se multiplicar pela janela do avião até o infinito. Sei que estou em casa.

Não podia deixar Nick Hornby de lado nesta entrevista. Tirando Alta Fidelidade, qual o seu livro preferido dele? Você se vê um pouco em Rob Gordon ou em algum outro personagem?
Um Grande Garoto ocupa a posição número 2, mas Juliet Naked mexeu bastante comigo também. Acho que, de tudo que ele escreveu, só não gosto mesmo da segunda metade de Uma Longa Queda. E eu devo ter coisas mínimas de vários personagens, mas não acredito que tenha um em especial que me absorva por inteiro. Não sou tão confiante, mas ainda assim sou mais confiante que os personagens dele (risos). Ou ao menos acho…

Livros de Nick Hornby

E falando em livros e Nick Hornby… Nos seus Top 5 do Calmantes com Champagne falta uma lista de livros. Qual o ranking do momento?
Não tenho lido tanto, sabe. Isso é algo que São Paulo tirou de mim: o prazer silencioso da leitura, algo que sobrava nos anos em Taubaté. Mas se eu tivesse que levar cinco livros para uma ilha deserta, eu iria roubar na contagem e incluir O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo (sim, os sete volumes, mas se você insistisse muito que eu não poderia levar tanto peso, eu deixaria os dois volumes relativos ao Arquipélago), As Obras Completas, do Oscar Wilde (parece muito, mas é só um volume gordinho em papel bíblia), O Chão Que Ela Pisa, de Salman Rushdie, O Macaco e a Essência, de Aldous Huxley e os dois volumes pequeninos de comédias, tragédias e sonetos, de Shakespeare (na edição marrom da editora Abril, de 1981). Esses cinco livros me fariam feliz até o fim dos tempos. Se você fosse boazinha eu pediria, ainda, Crime e Castigo, de Dostoievski, uma coletânea de poetas franceses do século XIX (organizada por José Lino Grünewald e lançada pela Editora Nova Fronteira em 1991) e a coleção Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust (que está completa aqui na minha estante, mas que ainda não li). Droga, não inclui a coletânea Seleta, da Lygia Fagundes Telles nem as três coletâneas de tirinhas sobre Deus, do Laerte, e nada do Manoel de Barros… Posso levar 10? 😛

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Você ama Alta Fidelidade? Então vai amar esse tumblr

27 Jul

por Bárbara Bom Angelo

Como são as coincidências não é? Entre os livros novos que estão na minha pilha interminável, voltei a ler Alta Fidelidade, do muso Nick Hornby. Daí que estava fuçando no site da PIX, como de costume, e encontrei a sugestão do tumblr Top 10 basf. Lá você encontra diversas mixtapes no melhor estilo de Rob Gordon, o eterno dono da loja de discos que amava fazer tops 5 de tudo na sua vida e era o personagem principal de Hornby.

E a “cara” das compilações é bacana demais – nada mais adequado do que reproduzir o shape das saudosas fitas cassete basf.

Um Dia, o livro mais bonito da cidade

17 Jun

 

por Bárbara Bom Angelo

Os mais desatentos vão passar por Um Dia, de David Nicholls, e achar que se trata de um livro de mulherzinha, no pior sentido que dão a esta palavra. Talvez uma história água com açúcar, cheia de clichês, quem sabe vampiros. Por que não? Estão tão em alta.

Sei disso porque despejei sobre a capa do livro todos os meus preconceitos. E olha que eu já tinha lido inúmeras resenhas positivas sobre ele. Mas quando me encontrei frente a frente com a obra de Nicholls achei que tinha me enganado.E não sei nem explicar o porquê. Acho que esperava algo mais low profile, uma capa um pouco mais enigmática. Enfim, preconceitos e mais preconceitos.

Bom, nem preciso dizer que mordi a língua com muito gosto. E logo no começo. Foi abrir o livro e me deparar com milhares de indicações, das melhores que se pode ter, e comecei a pensar que tinha mais ali do que a embalagem sugeria. A frase que mais chamou a minha atenção foi a do também escritor e britânico Nick Hornby.

Nick Hornby é Deus para mim. Absolutamente amo todos os seus livros, roteiros, composições… E se ele dizia que aquele livro era cativante, inteligente e espirituoso, eu precisava pelo menos dar uma espiada. Enfim, Um Dia é delicioso. Li em menos de uma semana o livro que conta em pílulas a história de Dexter e Emma.

Todo ano no mesmo dia, 15 de julho, somos impelidos a descobrir como estão esses dois amigos, que depois de dormirem juntos no dia da formatura constroem uma relação complexa e sincera.

E nada de assuntos pesados, ler as páginas escritas por Nicholls é uma experiência de observação, de como aqueles personagens crescem ao longo dos anos, como eles se afundam em dúvidas, depressão e drogas. De como eles se distanciam do futuro que traçaram para depois encontrá-lo na esquina, totalmente alterado ou incrivelmente idêntico.

O autor tem uma narrativa sincera, direta, irônica, bem humorada, cheia de referências musicais, livros clássicos – o que lembra, e muito, o estilo de Nick Hornby. Em alguns momentos de Dexter é impossível não se lembrar de Will, personagem central de Um Grande Garoto, que foi interpretado no cinema por Hugh Grant.

Esbocei muitas resenhas como esta, mas agora no fim percebi que bastava dizer pouco, uma frase, quase uma indicação como as tantas outras que dominam o livro: é uma das melhores coisas que já li. Estou com um aperto no peito por ele ter acabado. É normal ficar tão dependente de um livro assim? Deveria ter vencido cada frase a conta gotas para ele durar mais.

***

ah, Um Dia já virou filme, mas estreia só em agosto. Veja o trailer abaixo:

Pomplamoose, Nick Horby e outras divagações

31 Ago

Pomplamoose, descobri agora, é o mesmo que grapefruit, aquela frutinha muito popular no café dos americanos e que lembra a laranja. É também o nome da dupla de indie rock/jazz formada por Jack Conte e Nataly Dawn. Eles fazem um som bem bacana. Descontraído, com gosto de feito sem muitas pretensões.

Os dois criaram um canal do YouTube onde postam seus videosongs, que é como gostam de chamar os trabalhos. Por lá, tem desde músicas de autoria própria até covers de artistas como Lady Gaga, Edith Piaf, Beyonce. Tá parecendo uma mistureba sem sentido? É não, bota para escutar.

E para mostrar que não é zona, Jack Conte criou duas regras:

  1. O que você vê é o que você ouve (sem sincronização dos lábios com a voz ou instrumentos)
  2. Se você ouve, em algum momento vai ver (sem instrumentos escondidos)

Encontrei com eles por causa do vídeo fresquinho que postaram ontem. É nada menos que uma espécie de homenagem ao escritor/roteirista/compositor Nick Hornby. Um dos meus preferidos.