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Robert Montgomery e sua poesia de rua

15 Jul

por Bárbara Bom Angelo

Quero sair por aí colocando em outdoors meus sentimentos. Quero sair do campo das ideias e partir para a prática daquilo tudo que tenho vontade. Quero tirar de mim a preguiça que se instala impiedosamente. Quero mais de mim, sempre.

Robert Montgomery não sofre desse mesmo mal e, por isso, desde 2005 espalha pelas ruas as poesias abaixo. Algumas de suas obras estão também em museus, como o Museum of Fine Arts Houston, no Texas. Você pode ver os outros trabalhos de sua autoria aqui, em seu site oficial.

 

Para tocar ao coração

19 Nov

Swing me higher (imagem: Flickr_mathiole)

por Natália Albertoni

Ando melancólica e contente esses últimos dias. Parece contraditório, mas é tudo consequência da minha mente buliçosa que entrou forçosamente em pane ao constatar que a vida realmente é frágil. Delicada e indefesa como uma miniatura de cristal que descansa em um cruzamento da Avenida Paulista em horário de pico.

Estou cansada dos clichês que incentivam as pessoas a viverem “como se não houvesse amanhã”, e ao mesmo tempo não consigo me livrar deles. Afinal, depois de tudo, não posso ser a mesma.

Tentarei não insistir nisso. Mas por enquanto, sugiro que tente enxergar a beleza de um abraço de partida, do vento refrescante a sacolejar uma árvore folhuda, do balançar divertido de uma criança num parquinho. Vive com força, sem preguiça. E toque o coração de quem realmente importa. Só assim vai valer à pena.

Saber Viver
(Cora Coralina)

Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar

O mar

2 Jun
Búzios no final da tarde_arquivo pessoal (Fevereiro/2009)

Búzios no final da tarde_arquivo pessoal (Fevereiro/2009)

A função da arte/1
(Eduardo Galeano)

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!

O primeiro dia do ano

9 Fev
Barra do Sahy - Janeiro/2009

Barra do Sahy - Janeiro/2009

Aurora

O poeta está bêbado, mas
escuta um apelo na aurora:
Vamos todos dançar
entre o bonde e a árvore?

(Carlos Drummond de Andrade)

Primavera de 1985

9 Fev

por Natália Albertoni

Enquanto ela dava à luz, o poeta rabiscava a lápis no papel de pão, o princípio daquilo que seria uma homenagem ao amor intransponível. Sentado numa mesa de alumínio capenga de uma padaria medíocre, dividia-se entre a composição harmônica das palavras e a discussão eufórica sobre os rumos do país com o amigo que esperava no nascimento da filha, o triunfo sobre a barbárie. Era primavera de 1985: fim da ditadura militar, luta pelas eleições diretas, aniversário da morte de Che Guevara, a criação do PT. E nesse clima de euforia e dor, nasceu Natália. A filha e a poesia.

A primeira, fruto de uma paixão madura e militante, da crença esperançosa de que “amanhã, vai ser outro dia”. Homenagem a Natália Sedova, companheira de Trotsky durante seus mais de quarenta anos de militância pelo marxismo. Uma declaração de fé ao socialismo.

A outra, resultante de um amor sobre um ser que ainda não pulsava. Do amor intenso de um pai triste que não teve filhos e que não descansou até ver Natália caminhar com perfeição na ponta do bico de pena, por todo o papel pálido, agora amarelado pelo tempo.

Expressão final desses valores, Natália foi criada num ambiente motivado pelas lutas políticas e pelo ideal romântico do socialismo, num tempo áspero de recomeço, em que as damas-da-noite insistem em se aventurar pelas ruas sobrevivendo à dureza do concreto.

Natália carregou as convicções dos pais por todos os lugares e desde sempre não entendia como a vida funcionava. Por que crescia num mundo em que as diferenças enterravam o respeito pelo próximo? Por que filha de um amor que superou a banalidade do preconceito de pele, tinha que conviver com as piadas racistas incrementadas pelos novos tempos? Por que ninguém tinha ideais socialistas? Não queria dizer a eles, mas aquele mundo era pior. Bem pior.

Em 2005, terminou o Ensino Médio e teve que optar por uma profissão. Filha de professores, não suportava a idéia de passar feriados corrigindo provas e encarar nas salas de aula, alunos privilegiados, mas descomprometidos e desinteressados. Mas tinha que mudar o mundo! Além do mais, devia aos pais os anos da juventude perdida na militância estudantil, bolchevique, pelo fim das desigualdades.

Optou pelo Jornalismo ingenuamente, acreditando que poderia denunciar o que bem entendesse e que com o poder da escrita, poderia mudar idéias e mais que isso. Acreditando que num país onde o salário mínimo era de R$300,00, as pessoas gastariam desse pouco dinheiro para se informar, desenvolver intelectualmente e no futuro se levantar contra tudo o que há de errado neste mundo.

Por muito tempo ela se culpou. Mas um dia, ainda frustrada sua mãe lhe disse: “Eu não faço mais nada porque meu tempo é outro. Já lutei muito, estou cansada. Mas se vocês não acreditarem, quem vai?”. E ela voltou a  acreditar…

Natália (Sedova)

Quando puderes ler e compreender
As primeiras palavras deste poema,
Os dedos que te escrevem,
estarão batendo à porta do meio século,
ou tateando as cordas de um concerto
cujo palco chama-se
alcova.

O dia será lindo e com ele,
teu vestido estampado reluzirá as imensidões.
Tua sandália de palha,
entrelaçada de mulher
correrá os campos,
pisando nas folhas que já foram jovens.
E das entranhas do crepúsculo,
Uma sonata de ventos,
desembarcará no teu corpo.
Irá se hospedar nos teus olhos
Acompanhada dos violinos do céu.

Antonio Viana
primavera de 1985