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Meia Noite em Paris e a saudade

20 Jun

por Bárbara Bom Angelo

Desde que li o texto Minhas coisas favoritas, do Nicolas Vargas do Brainstorm #9, não parei de pensar na saudade como forma de estímulo.

Sou uma saudosista de primeira. Tenho saudade de tudo: da casa antiga, do primeiro carro, dos meus avós, do meu pai, de coisas que nunca vivi. O bom é que não é uma falta que machuca, que incomoda. É uma falta que me inspira, seja a escrever, a pesquisar, a me aproximar daquilo que já não posso mais ter por perto.

E esse sentimento, em especial a saudade do que nunca foi meu, do que nunca experimentei, ficou latejando em mim depois de ver o novo filme do Woody Allen, Meia Noite em Paris.

Apesar de perceber o que viver no passado pode trazer de ruim, não deixei de morrer de inveja do personagem principal, Gil Pender (Owen Wilson), que consegue por meio de uma carro/máquina do tempo encontrar os incríveis Hemingway, Fitzgerald, Dalí, Degas, Picasso, Buñuel, Gauguin e aproveitar a Paris dos anos 20 com que tanto sonhava e se perdia.

O filme é lindo, ainda mais para quem já conhece Paris. Se um dia eu voltar para lá, vou tentar a sorte no momento das doze baladas, sentadinha numa escada, só aguardando que um carro antigo me leve até onde meus devaneios conseguem ir.

Confissões de gente grande e pequena

17 Dez

por Bárbara Bom Angelo

A minha:

A saudade me visita todos os dias – algumas vezes com gosto doce, outras mais pesada ao coração. Tenho vontade de ligar para ele, mas acabo me lembrando que isso já não é mais possível. Penso na felicidade (ou infelicidade) dele durante todos os lances de jogos do Palmeiras, se ele gostaria dos desenhos que tomam o meu corpo, no orgulho que teria das coisas que tenho feito. E de vez em quando repito mentalmente o jeito que dizia meu nome, com um sotaque carioca carregado e inventado.

E a sua?

Cinzas e flores

18 Nov

(imagem: Flickr)

por Natália Albertoni

“É estranho. Os bons morrem jovens. Assim parece ser quando
me lembro de você que acabou indo embora cedo demais.” (Renato Russo)

Seu último cigarro foi aceso em uma sexta-feira 13 em que os raios de sol aqueciam até a mais escura sombra. Enquanto o farelo cinzento fazia a curva natural a caminho de esgotar a pequena brasa, as pessoas se amontoavam a sua volta, o espiavam com o auxílio da ponta dos pés e enchiam os olhos d’água em busca de um pouquinho de presença.

(…)

Vagaroso, arrastava as sandálias de couro pelos corredores com a mesma tranqüilidade de uma canção saudosa. Balançava a cabeça meio sem jeito, meio com charme, para ajeitar os finos e compridos fios de cabelo que insistiam em perder cor.

Sempre de calça jeans, disfarçava a regata neutra com uma camisa colorida, normalmente xadrez. Os colares envolvidos em seu pescoço e o pêndulo de pena suspenso por uma de suas orelhas reforçavam um estilo hippie, tanto ultrapassado quanto encantador.

Recostado na porta, aguardava o atraso por alguns instantes. Ainda baforando o hálito seco e amargo consequente do último trago de tabaco, beijava carinhosamente a testa de alguns que pouco a pouco adentravam a sala e seu mundo para lá viajarem durante cerca de 45 minutos.

Na companhia de palavras e expressões curiosas, transmitia um medo bom. Um temor instigante, intencional, com propósito. Só agora faz tanto sentido. Cauteloso, observava os questionamentos sem interferir nas conclusões subjetivas.  E segurando o queixo com a ponta dos dedos, analisava todos com um sorriso leve, enigmático, às vezes irônico.

Deve estar a fazer isso agora, tranqüilo, com os óculos em repouso no topo da sua cabeça como uma tiara. Ainda misterioso, deixa inquietação e medo no ar para sugerir alguma reflexão aos que tiveram a sorte de conhecê-lo.

O cigarro enfim apagou-se. Sobraram as cinzas, as flores e a saudade.

***

Desde cedo aprendemos que a nossa única certeza na vida, é a morte. Mas não aprendemos a continuar depois dela. Desejo força aos que ficaram, para que possam seguir em frente. Equilíbrio aos que perderam o chão. Pêsames apenas aos que nunca terão chance de passar sequer alguns minutos ao seu lado.

Chiclete sabor nostalgia

7 Out
imagem: flickr_lauren-go-lightly

imagem: flickr_lauren-go-lightly

por Bárbara Bom Angelo

Minha boca está cheia de saudade. Saudade de alguns gostos que já não podem mais tocá-la. É o ovo frito com as bordas bem douradas da minha avó, sempre com uma coroa de pequenos pedaços de pão acompanhados das estripulias de um certo gato de botas. É o macarrão com molho vermelho da outra avó, que desafia as leis de equilíbrio ao juntar de maneira perfeita o doce com o salgado. São os gomos de tomate cortados displicentemente por meu pai, saboreados com sal e promessas de juventude eterna, que ele esbanjava sem esforço.

Alguém aí pode inventar aquele chiclete do Willy Wonka que nunca acaba e traz o gosto de várias comidas ao mesmo tempo? E, por favor, coloque nele um botãozinho com a função nostalgia.

Caçando estrelas

23 Set

por Bárbara Bom Angelo

não há tempo que mude isso. nem mesmo as nossas mudanças. esse é um amor diferente. daqueles que não precisam da convivência constante para continuar. basta saber que nós duas somos para sempre. mas hoje lembrei de você, de quando ainda éramos grudadas. daquela noite em que deitamos para caçar estrelas cadentes, com as costas sobre a textura áspera do asfalto. veio a vontade de ficar mais perto, de trocar impressões, gostos e cheiros. vai dizer para a saudade que o dia-a-dia não é necessário.